A necessidade da gestão profissional no esporte

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A sociedade brasileira em geral tem se manifestado nas mais diferentes esferas – no meio acadêmico, através da mídia, entre outras – sobre a necessidade urgente de se profissionalizar o esporte, de se administrar o esporte com transparência: o caminho para o país obter sucesso a nível olímpico seria o aperfeiçoamento da administração esportiva do país.

Os profissionais da área consideram que a combinação entre talento e organização tende a levar ao sucesso, à certeza da obtenção de resultados expressivos, desde que organização seja entendida como a sinergia entre trabalho em equipe, liderança e planejamento.

A mudança no esporte, em termos organizacionais e administrativos no Brasil, é premente e a evolução em algumas modalidades esportivas tem se revelado fruto de gestão profissional, como por exemplo no voleibol. Mas esta não é a regra.

Principalmente no campo da formação do profissional para atuar na área, ações têm sido desenvolvidas, mas a simples a frequência de um “administrador” em um curso que repasse conceitos básicos da área não será suficiente para a almejada mudança. Para o aprimoramento da área é necessário, antes de tudo, que se conheça o esporte no Brasil, que se tenha a real avaliação da realidade nacional em termos das condições e necessidades existentes, que sejam desenvolvidos estudos e pesquisas na área. Só então será possível a construção e a consolidação de práticas administrativas aplicadas aos diversos segmentos do desporto, respeitadas as características culturais e sociais do país.

A área de Administração Esportiva envolve a aplicação dos conceitos e teorias gerais da Administração ao Esporte e aos diferentes papéis que ele desempenha na sociedade contemporânea. Seu estudo engloba conhecimentos multidisciplinares, e passou a ser divulgado com maior consistência a partir dos anos sessenta do século passado, conforme destaca Pitts (2001) em tópico sobre a história da preparação profissional na área.

Pela abrangência que o esporte tem no contexto social dos dias de hoje, estão também envolvidos, de maneira geral, além dos conceitos e teorias da Administração, conhecimentos relativos a Economia, Marketing, Legislação e Política (Pitts, 2001). A especificidade das características que o esporte assume, conforme o setor social em que está inserido – privado, público ou terceiro setor – leva à necessidade de estudo e aprofundamento em outras áreas, como: medicina, psicologia e sociologia do esporte; comunicação e tecnologia, entre outras.

A mesma autora define área de estudo: “ é composta por um corpo de conhecimento de literatura relativa a teoria e a prática; pelos profissionais que formam profissionais, que desenvolvem pesquisa e os que atuam na prática; por organizações profissionais dedicadas ao avanço da área; pela formação profissional e pela credibilidade que ela conquista perante a sociedade” (Pitts, 2001).

Diagnóstico realizado em 1971 sobre Educação Física e Esporte no Brasil já apontava a evolução da indústria do esporte em relação aos segmentos de materiais esportivos, de construções e instalações destinadas a Educação Física, Esportes e Recreação, sem, no entanto, se referir a questões de gestão e administração esportiva.

A partir da demanda do mercado e do desenvolvimento da área em outros países, foi realizado em 1978, na Escola de Educação Física da Universidade de São Paulo, um curso de especialização em Administração Esportiva.

Diferentes universidades, faculdades, entidades profissionais, sindicatos passaram então a oferecer a disciplina e cursos de administração esportiva – de extensão universitária, de especialização, de curta duração – para públicos das áreas de educação física e esporte e não profissionais que atuam em organizações esportivas. Paralelamente, começaram a ser produzidas monografias, dissertações e teses de doutoramento ligadas ao tema, também em cursos de Administração, Marketing, Engenharia.

Estudo desenvolvido por Moraes et al. (1999) analisou a distribuição dos artigos publicados na Revista Paulista de Educação Física, entre 1986 e 1997, e verificou que dos 155 artigos publicados entre 1986 e 1988, 5% eram relativos à área administrativa e, entre 1992 e 1997, este porcentual atingiu 1%. Paulo et al. (1999) realizou estudo semelhante, com foco nas 173 dissertações de mestrado outorgadas no Curso de Mestrado da Escola de Educação Física e Esporte da Universidade de São Paulo, e encontrou seis trabalhos referentes à área de Administração Esportiva.

Publicações de autores nacionais também começaram a surgir nas últimas décadas. Livros sobre Administração Esportiva contendo tópicos gerais da teoria da Administração aplicada ao Esporte, Liderança, Organização Esportiva e de Eventos vêm, cada vez mais, sendo editados (Pereira da Costa, 1979; Capinussú, 1986; Capinissú, 1992; Melo Neto, 1995; Brunoro e Afif, 1997; Morales, 1997; Fundação Getúlio Vargas, 1998; Melo Neto, 1998b; Aidar et al., 2000; Rezende, 2000).

A área de Marketing Esportivo também teve grande impulso com publicações recentes, como reflexo da nova visão dada pela legislação do país, que incentivou a entrada de empresas investidoras nos clubes e entidades de administração do esporte e introduzindo os principais conceitos e diferentes abordagens da área (Melo Neto, 1995; Contursi, 1996; Melo Neto, 1997; Melo Neto, 1998a; Pozzi, 1998). Destaca-se também a publicação dos Anais do Seminário INDESP de Marketing Esportivo (1996) promovido pelo INDESP – Instituto Nacional de Desenvolvimento do Desporto, em 1995, marco da área, com textos conclusivos das palestras proferidas por profissionais de diferentes segmentos do esporte nacional e de outros países.

Apesar do crescimento da área, em termos de cursos e publicações, verifica-se que nela a produção cientifica ainda se restringe a alguns temas, não sendo compatível, quantitativa e qualitativamente, com a necessidade de seu desenvolvimento no país.

GEPAE.

*Este texto é parte do artigo escrito pela Professora Dra. Flávia da Cunha Bastos, para saber mais leia: BASTOS, F. C. Administração Esportiva: área de estudo, pesquisa e perspectivas no Brasil. Motrivivência, ano XV, n. 20-21, p.295-306, mar./dez. 2003. http://www.periodicos.ufsc.br/index.php/motrivivencia/article/view/930

2 comentários

  1. Luis, parabéns pelo texto. Achei muito interessante e essa pesquisa corrobora o meu pensamento sobre o tema.
    Venho percebendo que as pesquisas sobre Administração e o Marketing Esportivo são escassas, sendo assim, as varíaveis que são inerentes a área são pouco discutidas e utilizadas da melhor forma.
    Eu fico triste todo mês, quando recebo o e-mail eletrônico do CREF sem nenhuma matéria a respeito de administração esportiva. Não culpo a entidade, não tem como publicar algo que não é desenvolvido com eficiência.
    Como você bem destacou, através do histórico das publicações, o assunto é pouco discutido e estudado, portanto ficamos a quem de sermos os melhores.
    O mais triste é ver cidades como a minha, Belo Horizonte, com raros seminários a respeito dessa questão. A sensação que tenho é que cada dia mais estou atrás de profissionais de SP e do RJ.
    Mas não ficarei lamentando pra sempre. Estou “correndo” atrás para que isso mude e acredito que só assim mudaremos essa quadro negativo.

    • Saulo,
      obrigado pela participação!
      Este artigo foi escrito pela Dra Flávia, eu fiz uma retificação ao final do texto colocando a referência, embora ele tenha sido escrito em 2003 ainda permanece atual, a gestão esportiva é uma área que sempre encontrou dificuldades, vamos trabalhar para desenvolve-la!
      Abrs!
      Luis C. Santana

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